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DOS ALPENDRES MAIS SIMPLES DO SERTÃO
AOS MAIS NOBRES TEATROS DO PAÍS
 
                          Uma homenagem prestada ao poeta Pedro Bandeira de Caldas pela Academia dos Cordelistas do Crato, no dia 04 de setembro de 2014. Pedro Ernesto Filho, na qualidade de orador oficial da instituição, foi escalado pela sua diretoria para saudar o homenageado, o que fez mediante o mote decassílabo que segue. Na foto, Pedro Bandeira ladeado pelo casal Pedro Ernesto e Gizelda. 


Entre a força, a poesia e a coragem
enfrentava poeira e o sol quente,
com projetos de arte em sua mente
fez do burro um transporte pra viagem,
fazendeiros lhe deram a hospedagem
atendendo do jeito que ele quis,
paletó e gravata de juiz
e um revólver colado ao cinturão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
Por “Estrela”, seu burro era chamado;
de metal enfeitados, seus arreios,
o chicote e esporas eram os meios
de fazê-lo mais ágil e apressado,
transpassava as fronteiras do Estado
sem perder do destino a diretriz,
no sorriso mostrava ser feliz
carregando Jesus no coração
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.

A viola, nas costas, protegida,
guarda-chuva no braço pendurado,
chapéu cinza, de aba, rodeado;
sela nova e coxim de cor tremida;
a corrente dourada era seguida
de um relógio de bolso nos quadris,
Ray Ban escanchado no nariz
e um anel amarelo em cada mão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
O palanque da festa era uma mesa;
a cadeira de couro, seu assento;    
 microfone, o gogó e o talento;
 a plateia, o povão da redondeza,
descrevendo Escritura e Natureza
o parceiro ficava sem raiz,
os ouvintes fiéis pediam bis
quando Pedro cantava uma canção
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
     
Na carona do rádio ele cresceu,
na viola saudou autoridade,
implantou cantoria na cidade
e os maiores eventos promoveu,
os mais ricos lugares conheceu,
em Lisboa cantou sua matriz,
explorou a cultura de Paris,
com repente ilustrou televisão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.

Já saudou da República o Presidente,
já cantou para o Papa de improviso,
hoje é rico, porém já viveu liso
no início da arte, antigamente;
conseguiu na grandeza do repente
soerguer o valor de seus perfis,
da cultura traçando os seus croquis
dando aza ao poder da criação
 - Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
Repentista, poeta e escritor,
consagrado um dos grandes sonetistas,
é o Príncipe no rol dos repentistas,
bom teólogo, jurista e professor,
é um monstro na hora de compor,
discursando é um mestre no que diz,
suas músicas cantadas por Luiz
ultrapassam os limites da razão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
Foi por Câmara Cascudo pesquisado,
cantou versos nos pódios de Brasília,
construiu por aqui sua família
e ajudou Juazeiro em seu reinado,
pelo mundo poético é abraçado,
e do segredo da arte, um Raio-Xis;
com a sua humildade de aprendiz
aveluda o papel de campeão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
Editoras apóiam seus trabalhos,
os artistas regravam seus poemas,
impossível é dizer quais foram os temas
que Bandeira adotou nos cabeçalhos;
na imprensa, Drumond deu agasalhos
a seus versos ecléticos, tão sutis,
sobre o couro a madeira e o verniz
e por mostrar o valor do artesão
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.
 
Escreveu no estilo popular
para o povo cantar abertamente,
da gramática fez uso permanente
explorando o poder do linguajar,
é um fã de Augusto e de Alencar,
sonetondo emparelha com Diniz;
da saudade, curando a cicatriz,
fez poemas a bordo de avião
- Dos alpendres mais simples do sertão
aos mais nobres teatros do país.

 
 

 
Pedro Ernesto Filho
Enviado por Pedro Ernesto Filho em 21/09/2014
Alterado em 19/11/2014

Música: Deus e eu no sertão - Victor e Leo



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